
−Explicação
Então, o que fazer quando a coisa aperta e você precisa de um dinheiro extra? Olhe para a sua comunidade e pense nos problemas locais. Muitas vezes, são as regiões pobres ou menos favorecidas economicamente que têm as melhores ideias, simplesmente porque precisam. Os ricos até podem propor soluções, mas muitas vezes não entendem a pobreza ou a desigualdade no nível pessoal. Por isso, as ideias deles podem não funcionar em lugares onde o dinheiro é escasso. Acredite se quiser, muitas empresas da Fortune 500 começaram em tempos de dificuldade financeira. Por quê? Nesses momentos, as pessoas costumam apertar o cinto e procurar soluções práticas. As grandes empresas nem sempre têm as respostas, então sobra espaço para os novatos brilharem. Claro, sempre existe um ou outro estudo que diz apoiar qualquer ponto de vista, mas às vezes aquilo em que as pessoas acreditam tem mais impacto do que a realidade. Lembre-se de que também nascem empresas em regiões ricas e em tempos de prosperidade, mas as histórias de pobre que fica rico costumam ser mais inspiradoras e divertidas de escrever e de ler.
Vamos nos afastar o máximo possível dos redutos tradicionais do sucesso e encontrar histórias inspiradoras de pessoas que vivem em países com menos recursos, principalmente recursos do governo, e que usaram isso a seu favor para criar ferramentas que primeiro ajudaram a população local e depois outras pessoas no mundo com os mesmos problemas. Lembre-se de que, embora esses negócios paralelos tenham se tornado globais em muitos casos, isso não quer dizer que, de qualquer canto do planeta onde você esteja lendo, os serviços ou produtos deles já tenham chegado aí na sua região.

+O uso construtivo de uma invasão na Nigéria
O aguapé é uma bela flor que flutua livremente nos cursos d’água, tão atraente que muitas vezes é usada como decoração em lagos artificiais. O problema é que ele se reproduz rápido, impedindo que o sol entre na água e, com isso, perturbando a vida que existe embaixo dele. Parece uma planta ruim que precisa ser eliminada, certo? Calma lá, porque o mundo não é preto no branco, e a maioria das coisas “ruins” pode ser usada para o “bem”. Essa planta deu origem a inúmeros negócios paralelos de moradores que buscam formas construtivas e lucrativas de manter sua população pequena. Uma das coisas que essa planta faz é absorver metais e toxinas, o que a torna uma ferramenta ideal para o tratamento barato de água, que muitos dizem ser sustentável até o dia em que o aguapé for totalmente eliminado, como qualquer outro recurso natural. Mas isso é assunto para cientistas. As outras pessoas também precisam de trabalho, por isso o maior negócio com o aguapé é usá-lo no artesanato, que qualquer pessoa criativa, habilidosa com as mãos e de mente criativa pode transformar em lucro.
Uma dessas pessoas é Achenyo Idachaba, da Nigéria. Ela fundou a MitiMeth, uma empresa que transforma o aguapé, uma erva daninha invasora que entope os cursos d’água, em produtos artesanais como cestos e acessórios para a casa. Ela usou esse conhecimento para enfrentar também os resíduos agrícolas e urbanos, transformando-os igualmente em artesanato. É realmente notável para uma pessoa que só queria impedir que o aguapé entupisse as águas da sua região. É verdade que Achenyo tinha uma vantagem educacional e talvez financeira, já que nasceu nos EUA e fez lá o seu MBA e uma graduação em ciência da computação, mas o que a ciência da computação tem a ver com artesanato? Ela usou sua cabeça para os negócios para identificar uma necessidade e resolvê-la, e já treinou mais de 300 pessoas da região em tecelagem para seguirem os seus passos. Pense nos outros empregos que ela criou ao controlar a população de aguapé, ajudando ao mesmo tempo a sobreviver todas as outras espécies que não conseguem enfrentar o aguapé sozinhas.
+O homem de Bangladesh que percebeu que o dinheiro era importante
Um dos ditados que enfiaram na nossa cabeça desde que o mundo é mundo é “Dê um peixe a um homem e ele comerá por um dia; ensine-o a pescar e ele comerá para sempre”. O que muita gente não percebe nisso é que, até esse homem aprender, ele precisa de dinheiro para comer, e quando aprende a pescar, precisa de dinheiro para comprar o equipamento. Sabe o que é difícil de conseguir quando você é pobre? Dinheiro para pescar depois de ter aprendido, e um homem, Mohammad Yunus, de Bangladesh, sacou isso e descobriu o que fazer a respeito.
Em 1983, Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, fundou o Grameen Bank, uma organização de microfinanças e um banco de desenvolvimento comunitário que ajuda milhões de pessoas a abrir o próprio negócio e sair da pobreza. A missão oficial dele como banco é aliviar a pobreza, e para garantir o pagamento conta com a pressão do grupo, algo muito típico de cidades pequenas e vilarejos. Isso leva a uma taxa de pagamento de 98%. Os juros são competitivos para empréstimos grandes e, para os empréstimos menores, a partir de apenas US$ 30, são negociados conforme a capacidade de pagamento de cada pessoa. O banco empresta principalmente para mulheres, que são 95% dos seus clientes, por acreditar que dar recursos financeiros às mulheres pode levar a uma melhora geral no padrão de vida da família inteira, ajudando assim a tirá-la da pobreza.
Os estudos de fato confirmam essa afirmação, e no jargão bancário, ou no Ocidente, isso se chama microcrédito. Mas esse raciocínio não vem necessariamente de algum estudo moderno, e sim de uma antiga cultura conservadora de cidade pequena, praticamente universal, segundo a qual dar dinheiro às mulheres e usar a pressão do grupo para garantir o pagamento beneficia mais as famílias, já que, nessas circunstâncias, as mulheres pagam com mais frequência do que os homens. Na sua forma mais simples, este homem, nascido numa cultura tradicional e conservadora, partiu dessa ideia e transformou a cultura conservadora de cidade pequena num negócio de sucesso, usando ferramentas modernas que aprendeu ao fazer sua graduação nos EUA, junto com toneladas de pesquisa. Uma curiosidade à parte: em muitas cidadezinhas não ocidentais, tradicionais e conservadoras, essa lógica de as mulheres conseguirem empréstimos no lugar dos homens, ou de os homens receberem o dinheiro das mulheres, também é usada como incentivo para os homens se casarem, ainda que os detalhes variem de cultura para cultura. O raciocínio tradicional é o mesmo: as mulheres são mais confiáveis do que os homens com dinheiro, e os estudos modernos confirmam milênios de tradição.
Só um adendo: no dia de Ano-Novo de 2024, Yunus virou um criminoso condenado, depois de não escapar das acusações de violação das leis trabalhistas, aos 83 anos, no seu Bangladesh natal. E foi assim que terminou: em agosto de 2024, poucos dias depois de tomar posse como chefe do governo interino de Bangladesh, ele foi absolvido por um tribunal de apelação. Ele comandou esse governo até entregar o poder a um governo eleito em fevereiro de 2026.

+Um olhar atento vindo da Índia
Vamos aqui ao lado, na Índia, conhecer Arunachalam Muruganantham, carinhosamente chamado de “Homem da Menstruação” (Menstrual Man), e não pelos motivos que um ocidental poderia imaginar, mas pelo seu trabalho pioneiro em saúde e higiene menstrual. Numa demonstração comovente de carinho pela esposa, ele criou um absorvente barato depois de perceber que ela usava trapos velhos durante a menstruação. Ele enfrentou tanta zombaria por isso, e um ostracismo social tão grande, que usou isso como motivação para criar um negócio global que o levou à lista das 100 pessoas mais influentes da revista Time em 2014. Hoje a empresa dele, a Jayaashree Industries, fabrica uma máquina simples que qualquer mulher da zona rural pode usar para produzir absorventes. Assim, essas mulheres do campo podem fazer esses absorventes baratos e vendê-los nas suas comunidades, ganhando também um dinheiro extra. Já falamos que este homem largou a escola, tendo concluído só o 9º ano, por causa da situação financeira dos pais?
+Os sem-teto que cuidam dos ricos na Califórnia
Vá a qualquer salão de beleza caro e é bem provável que encontre um frasco de alguma coisa da Paul Mitchell Systems. Quando estiverem ensaboando o seu cabelo com esse produto caro, lembre-se de que ele veio de duas pessoas sem-teto, uma das quais não conseguia parar em emprego nenhum. Esta é a história de John Paul DeJoria, um dos cofundadores da Paul Mitchell Systems. Seus pais, de origem grega e italiana, se divorciaram quando ele tinha dois anos, em Los Angeles. Esse divórcio não foi bom para ninguém, já que ele cresceu na pobreza, muitas vezes em lares adotivos e com temporadas na rua. Para se virar, vendia cartões de Natal e jornais ainda criança. Em 1971, trabalhou na empresa de produtos para cabelo Redken Laboratories, de onde foi demitido. Às vezes, ser demitido ou não parar num emprego é sinal de que você nasceu para coisas maiores. Depois de uma década sem desistir, ele pegou emprestados impressionantes US$ 700, que usou com o sócio, o cabeleireiro Paul Mitchell, para criar a empresa John Paul Mitchell Systems. Muitas vezes eles moravam nos carros, vendendo os produtos de porta em porta. A fama se espalhou e, em uma década, a empresa valia bilhões. Ele também criou uma empresa de tequila, que vendeu há alguns anos por 5,1 bilhões. Nada mal para um “vagabundo” sem-teto e sem estudo formal, palavra que usamos em sentido figurado, porque ser sem-teto não faz de ninguém um vagabundo, e, no caso dessa pessoa, isso lhe deu um superpoder que ninguém mais tinha: perseverança, determinação e a recusa em desistir. O fracasso não existe; é só um passo rumo ao sucesso, até o dia em que deixarmos esta terra, seja lá o que cada um considere sucesso.
+Quando o governo não faz a sua parte
Esta não é uma história de pobre que fica rico; é uma história de pobre que continua pobre, sobre um homem que não buscava riqueza, mas mudança. Kennedy Odede nasceu com pouco acesso à educação, e até à água limpa, nas favelas de Nairóbi, no Quênia. Em 2004, aos 20 anos, com 20 centavos no bolso, Odede fundou a Shining Hope for Communities (SHOFCO) como um negócio paralelo. O que ele tinha era a sua convicção e a sua voz. Tudo o que ele queria era ensinar as pessoas a ler, e isso cresceu e virou algo maior: hoje a organização dele oferece a centenas de milhares de pessoas em muitas favelas urbanas do Quênia água limpa, atendimento de saúde, educação e programas de empoderamento econômico. Todos esses projetos são financiados por doações privadas, por uma parte dos programas de empoderamento econômico e por verbas do governo. Este homem pegou os seus problemas, resolveu-os, ensinou outras pessoas a fazer o mesmo e mudou o mundo sem nada no bolso. Essa é a maior conquista de todas.

+Referências
Cartier Womens Initiative (Achenyo Idachaba), The Guardian (Mohammad Yunus), Grameen Foundation (Mohammad Yunus), Al Jazeera (Arunachalam Muruganantham), Famous entrepreneurs (John Paul DeJoria), Shofco (Kennedy Odede)
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